segunda-feira, 20 de abril de 2009

SOBRE SILÊNCIOS ELOQUENTES

O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (Le Scaphandre et le Papillon), de Julian Schnabel, é um poema, uma obra de arte, de delicadeza, simplicidade e humanidade. Silencioso e sonoro, tocante, do primeiro ao último minuto. Comovente, forte, instigante, real. O filme narra a história verídica de Jean-Dominique Bauby, ex-editor da Elle francesa: um homem bonito, europeu, bon vivant, charmoso, cercado pelo glamour. Em 1995, Bauby sofre um AVC fulminante, que o deixa inteiramente paralizado e acometido de uma rara síndrome chamada "Locked in". Seus pensamentos estão perfeitos, mas não consegue mover um músculo, nem falar, nem mexer a cabeça, de modo que ele tem a impressão de estar aprisionado dentro do corpo. E o filme comunica essa angustiosa sensação de prisão muito bem, com enquadramentos e focos ora destorcidos, deslocados, como se estivéssemos de fato vendo o mundo pelo olho de Bauby. Eis a metáfora com o escafandro. Ao mesmo tempo, a mente imaginativa e os pensamentos o permitem devanear sobre a vida e voar longe, como uma borboleta. E assim o filme segue, narrando a difícil vida em tratamento, num hospital costeiro em Calais. Bauby conhece pessoas generosas, humanas, que se esforçam em desenvolver um sistema para que ele se comunique com o olho esquerdo. E com essa comunicação tão difícil ele escreve o livro "O escafandro e a borboleta", que narra essa etapa da sua vida. É um drama, claro, mas em nenhum momento exagerado, piegas nem propenso à rasgação deslavada da tragédia. É muito mais um filme belo, verdadeiro, honesto, sobre como ainda pode existir bondade e humanidade, num tempo que começamos a suspeitar que essas coisas não existem mais. Como definem muitas críticas especializadas, "obrigatório".

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